Foi apenas um sonho

Já há um tempo penso em escrever e fazer uma análise despretensiosa sobre coisas das quais assisto.

De fato, o olhar clínico não nos furta de perceber o que é da dinâmica humana independente do contexto que ela apareça.

Apesar da não tão boa memória escrevo a partir do registro que o filme trouxe. Lembro-me que numa certa feita na apresentação de um caso clínico não consegui fazer a transcrição literal de uma sessão e uma mentora me orientou a falar a partir do que havia mais me marcado daquele atendimento, pois isso sim contava para além da literalidade do que havia ocorrido.

Para começar escolhi um filme do qual não sabia o quão carregado de significados seria. 

Primeiro por remontar o casal do dramático Titanic, Leonardo DiCaprio e Kate Wislet, o que por si só já traz algumas prenuncias.

Segundo por trazer reflexões acerca de como caímos em algumas trivialidades e esquecemos do que pode nos trazer sentido e desejo pela vida. 

Vos apresento: Foi apenas um sonho!

 

A estória é sobre o casal Frank e April, esta inicialmente com uma carreira de atriz, não tão bem sucedida e seu marido que trabalha num emprego do qual não gosta por mais de 10h por dia. O casal inicia uma vida a dois com planos e assumem um acordo que fica bem expresso numa frase emitida por Frank: “Nada é permanente”. April ao decorrer dos anos passa a ser uma dona de casa, mãe de dois filhos, e fica num lugar em que seu olhar frustrado sobre essa condição acompanha toda trajetória do filme. Na noite de aniversário de Frank numa conversa os dois reavaliam seu estilo de vida e percebem- se imersos numa cultura empobrecida pelas longas horas de trabalho, pelos projetos voltados para aquisições materiais e esquecidos do que de fato no passado os faziam sentir-se realizados e apaixonados pela vida (“Eu quero sentir as coisas; sentí-las de verdade”).

A partir de tais reflexões os dois decidem abandonar essa vida e se aventurar com os filhos numa viagem à Paris sem passagem de volta. A notícia é recebida com surpresa e dúvidas pelos amigos e vizinhos, mas os dois decidem sustentar o caminho que os levaria a uma vida mais cheia de sentido. As coisas começam as ser empacotadas, Frank inicia e anuncia seu possível desligamento da empresa e Paris passa a fazer parte do discurso do casal como o lugar em que se livrariam daquela vida medíocre.

Existe no filme um personagem, filho de uma corretora, com certos “comprometimentos” na saúde mental que é a peça chave no levantamento de algumas questões que perpassam o drama do casal na leitura da trivialidade na qual viviam e em outros momentos da trama. Lido e compreendido como aquele que fala coisas despropositadas na verdade John surge como “Bocca Della Veritá” nos dramas vividos por Frank e April.

O casal após a decisão da mudança se vê posto à prova quando o chefe de Frank oferece-lhe a possibilidade de um novo e melhor posto de trabalho e April engravida de um terceiro filho. Paris passa a ser interrogada e o casal entra numa nova crise entre a possibilidade da aposta para o novo ou a permanência do lugar empobrecido existencial que se encontravam.

Para não incorrer num maior spoiler podemos pensar em três aspectos bem interessantes do drama exposto:

  1.  O incômodo inicial do casal com o estilo de vida que tinham
  2. A possibilidade de um deslocamento não apenas geográfico, mas também de um lugar afetivo
    em que poderiam rever e realocar prioridades, tendo como significante Paris (lugar de desejo)
  3. Os percalços que põe à prova essa mudança

 

A rotina e as dinâmicas do casal fazem com que April comece a se questionar e apresentar para o marido que tipo de vida tinham, com o que um dia já sonharam e aonde estavam. A percepção desse desencontro os leva a começar a sonhar com uma nova perspectiva que fica significada e representada em Paris. Por que essa cidade? Penso que para além das justificativas apresentadas pelo filme a cidade da Luz traz a simbologia dos prazeres, das realizações em detrimento ao material, de um estilo de vida mais rico de sentido. Interessante que tanto a nova proposta de trabalho de Frank quanto à gravidez de April põem em xeque o quanto os dois estavam dispostos a bancar esse lugar de desejo em comparação ao que viviam em que pelo menos pelo desespero apresentado principalmente por April já não seria também mais sustentável.

Lembrei-me de uma crônica de Rubem Alves em que ele fala sobre a possibilidade de mudar-se para Bahia e das reflexões que talvez essa mudança traria. Numa parte da crônica “Por que não me mudo para a Bahia” do livro “Se eu pudesse viver minha vida novamente” ele diz o seguinte:

“Todo mundo tem nostalgia por um outro lugar. Todo mundo gostaria de se mudar para um outro lugar mágico. Mas são poucos os que tem coragem de tentar.”

Fazendo um comparativo com o Filme penso que ao nos depararmos com a pobreza de algumas dimensões de nossa vida começamos a pensar numa possível Paris ou Bahia em que podemos fazer novas apostas, realocar prioridades, mas tentados pela melhoria desse lugar de mesmice decidimos permanecer, não nos deslocar. O pedágio que se paga por essa não movimentação pode ser alto e a angústia pela permanência ser irreparável.

Que a rotina não nos engula a ponto de tornarmos o temporário permanente e não nos esqueçamos que a Paris ou a Bahia projetada pode ser o respiro que precisamos para nos deslocarmos de nossas misérias existenciais e o retorno à sensibilidade que ao longo dos anos acabamos perdendo.

 

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