Bates Motel

 

“Mother”…. A repetição reiterada de Norman pelo nome de sua mãe, Norma é marcante em todo desenrolar das 5 temporadas da famosa série “Bates Motel”. A estória é baseada no clássico “Psycho” de Alfred Hitchcock e conta a dinâmica da dupla, mãe e filho, Norma e Norman Bates. Na verdade, Bates Motel vem contar a história pregressa de um dos assassinos mais famosos do suspense mundial, baseado inclusive numa história real.

Aos maratonistas de plantão digo-lhes que terá spoiler, pois não haverá como passarmos pelas cinco temporadas da série sem abranger detalhes desse belo enredo.

Podemos começar a entender um pouco do mundo dessa relação maternal, quase conjugal, a partir dos nomes dos nossos personagens principais, Norma e Norman. Essa nomeação quase indiferenciada já aponta para alguns aspectos da relação patológica que começa a existir entre mãe e filho. De fato, no início do processo de desenvolvimento humano a criança vê sua mãe como uma extensão de si numa espécie de alienação, em que ela é o objeto de desejo daquele que o cuida. À medida que a criança se desenvolve e outras relações fazem interferência nessa relação dual (como, por exemplo, a relação paterna) o bebê começa a perceber que a disponibilidade da mãe não é a mesma e que ele não é o único objeto de desejo dela. Nesse momento ocorre o que denominamos de separação, o que de fato faz um marco no processo de diferenciação entre o bebê e seu cuidador, e faz com que esse indivíduo se constitua descolado do outro. Quando isso não ocorre dá-se o que chamamos de psicose e o sujeito fica no momento da alienação, como Norman está em relação a Norma.

Ao se observar a relação entre Norman e sua mãe essa diferenciação é mínima, a começar pelo nome. Nas vezes em que Norman faz ensaios de fazer essa separação quando elege outro objeto de amor (como Emma e Bradley, o que poderia fazer cisão à relação) Norma o interdita e o faz voltar a ser objeto de desejo dela. Mas, qual o porquê desse movimento maternal? We will see!

Dylan, personagem vivido como filho mais velho de Norma, convive com sua mãe num movimento de idas e vindas. Ao decorrer das temporadas existe um segredo velado que envolve a história da concepção de Dylan: ele é fruto de uma relação incestuosa entre Norma e seu irmão, informação esta que nos dá luz ao que Norma não consegue suportar em seu filho mais velho: a revivência de um trauma e a realização de um desejo proibido (o incesto). Freud em alguns de seus textos já falava que o incesto ou o desejo por ele poderia aparecer nas dinâmicas familiares, principalmente na base do que conceituou como Complexo de Édipo (nesse caso o desejo da criança por um de seus pais). Toda questão para ele se dá na interdição ou não desse desejo, o que irá influenciar na estrutura que a criança irá desenvolver como neurótico, perverso ou psicótico.

Norma e Caleb, seu irmão, viviam numa família desestruturada e refugiavam-se um no outro para suportar as muitas instabilidades que compunham seu lar. Norma repete com Norman a relação incestuosa que desenvolveu com Caleb. Interessante que após o nascimento de Dylan, Norma se relaciona com quem viria a ser o pai de Norman, relação esta que aparentava ter uma dinâmica tão conflituosa quanto a que assistiu de seus pais. A falta de elaboração de um trauma faz evocar a repetição deste em outro momento da história do sujeito.

Norma repete em sua “escolha conjugal” o que passou em sua infância e seu filho, Norman, assiste aos constantes conflitos com o marido. Ao decorrer de seu crescimento, como forma de defesa ao que vê, Norman faz uma espécie de dissociação frente ao trauma em que cria uma imagem de sua mãe colada a sua em que diferente a passividade que tinha quando apenas assistia às agressões do pai, passa a atuar em defesa dela. Tal atuação vem em forma dos assassinatos que comete e que são feitos em nome e por essa “mãe criada”, uma outra face de Norman, face esta rígida ao que entende como moralmente correto, moralidade esta provavelmente evocada pela culpa do incesto.

Tanto na série Bates Motel quanto em filmes como “Fragmentado” existe por parte dos autores a ilustração da psicose como um mundo criado pelo sujeito (posição subjetiva) na tentativa de lidar com seu trauma, o que no caso de Norman esse lidar vinha na forma concreta de extirpar literalmente os que podiam lhe fazer ou trazer mal por meio de sua face materna.

A possibilidade da entrada de um terceiro na relação estabelecida entre Norman e Norma, seja Dylan, ou qualquer outro parceiro seja para mãe ou para o filho, é impedida constantemente por um dos dois o que mantém a ligação doentia em que um não consegue se manter como indivíduo sem o outro. Emma, Bradley, Romero fazem parte desses terceiros que tentam entrar nessa relação.

No mais a série apresenta os atos cometidos por Norman e as tentativas de Norma encobrir os crimes do filho. Numa das temporadas Norman chega a ser internado e a face assassina de sua mãe, na dissociação dele, aparece em sessão, mas o tratamento é interrompido o que agrava a condição mental de Norman ocasionando em mais uma crise o assassinato da própria mãe.

Norman passa a recriar por meio da técnica da taxidermia a conservação da imagem de sua mãe, não a nível simbólico, mas real e por não suportar a dor de sua perda e do próprio ato cometido por ele convive com o corpo numa outra realidade.

Vemos por meio da série que por mais que existam fatores genéticos relacionados a quadros psíquicos mais graves as relações familiares precisam ser analisadas e estudadas, pois também influenciam na estruturação da psicose, como no caso de Norman.

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