Divertidamente!

A começar pelo nome o filme já traz dois aspectos bem interessantes: a mente e a mistura com a adjetivação divertida. De fato, o que vai acontecendo no sistema de controle emocional da pequena Riley ao longo do filme mostra a dinâmica em torno da interação entre a alegria, a tristeza, a raiva, o medo e o nojo desde o momento de seu nascimento aos 11 anos, momento este em que muda de cidade com seus pais.

Na verdade, a alegria vai ocupando uma posição na gestão dos lugares de cada emoção, fazendo sempre o possível para que a menina tenha boas recordações ao longo da vida. Ao lembrar bem as cenas são em poucos momentos que os outros personagens entram em cena. Para além de sua função de gestora, a alegria se ocupa em manter memórias cruciais dos principais momentos de vida de Riley, o que alimenta as bases de sua personalidade em relação à família, as besteiras que gosta, ao esporte que se identifica, etc.

No filme a tristeza é espreitada a todo momento pela alegria a fim de não contaminar as memórias, e lembranças afetivas de Riley até que por uma atrapalhação das duas elas são expelidas da sala de controle que acaba sendo gerido pela Raiva, pelo nojo e medo. Estes receosos e inseguros de como manejar os novos eventos na vida de Riley, acabam por reagir de maneira tal que as referências que a menina construiu ao longo da vida passam a ser destruídas, causando-lhe um desamparo e dissabor à vida.

A alegria e a tristeza passam a correr de forma desenfreada a fim de retornarem ao sistema de controle das emoções de Riley. Existe uma virada importante nesse momento no filme, pois pelo fato da Alegria não saber o caminho de retorno quem acaba fazendo a orientação de todo percurso de volta é a tristeza. A personagem possui tal conhecimento, pois uma das formas da Alegria distraí-la para não entrar em contato com os eventos na vida de Riley era mandando-a ler os manuais do sistema de emoções da menina.

Durante todo percurso de volta a alegria começa a entender e reconhecer que muitos dos momentos felizes de Riley eram precedidos de situações tristes, e que de fato a menina precisava entrar em contato com os desafios, com os lutos, com as mudanças que a vida sempre lhe trouxeram para conseguir ressignificar e quem sabe alegrar-se com as novas situações.

Temos a habilidade de dar vazão apenas a aspectos jubilosos da vida e afastarmos os desprazeres. Freud já nos dava notícias sobre isso quando fala sobre o Princípio do Prazer e da realidade, quando dimensiona o quanto queremos repetir esse lugar prazeroso e nos afastar de tudo que gera desconforto. No entanto, deixamos de ver o quanto a aproximação com esses fenômenos da realidade sejam eles de medo, tristeza, nojo, são tão importantes quanto os da alegria. Já dizia o poeta Frejat: “Rir é bom, mas rir de tudo é desespero”. De fato, às vezes encobrimos e afastamos situações difíceis pela alegria. A mente não é toda divertida, como o filme preconiza, mas o ponto é de como entramos ou não em contato com esse outro lado dela.

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